Somos pré-programados para estender a mão

Somos pré-programados para estender a mão

“Somos pré-programados para estender a mão ao nosso semelhante. A empatia é uma reação automática sobre a qual temos controle limitado. Podemos suprimi-la, bloqueá-la mentalmente ou apenas deixar de agir com base nela, mas exceto por uma parcela extremamente pequena dos seres humanos, ninguém consegue se manter emocionalmente imune à situação dos outros.”

Frans de Waal (Biólogo evolucionista, autor do livro A Era da Empatia)

 

Tenho acompanhado, ao longo dos últimos meses, algumas conversas e artigos falando sobre empatia e uma questão tem aparecido com frequência: A empatia é uma competência inata do ser humano ou precisa ser desenvolvida ao longo da vida?

O ser humano, em todas as suas camadas, é complexo e certamente ainda há muito a se descobrir em relação à nossa evolução e funcionamento da nossa mente. Mas, nas últimas décadas, os inúmeros avanços da tecnologia e dos estudos em neurociência têm resultado em descobertas reveladoras no campo da empatia. E para a questão apresentada no começo do texto a neurociência tem uma resposta clara: sim e sim. Sim, a empatia é uma competência inata do ser humano (o que significa dizer que já nascemos com ela) e sim, ela pode e deve ser desenvolvida ao longo da vida.

Algumas evidências comprovam que a empatia é inata ao ser humano:

1.Somos “pré-programados” a manifestar a empatia. Estudos recentes têm comprovado que nosso cérebro é naturalmente equipado com sistemas e estruturas neurais que permitem que a empatia se manifeste. É o caso, por exemplo do nosso Sistema de Neurônios Espelho: um sistema de células do cérebro com a capacidade de “gravar” e imitar ações/movimentos observados no outro. Além disso, eles permitem que o nosso cérebro “espelhe” as sensações e emoções de outra pessoa. Por exemplo, se você assiste uma pessoa cortando o dedo, no seu cérebro serão ativadas as mesmas estruturas que seriam ativadas se você próprio estivesse cortando o dedo.

2.Expressamos formas simples de empatia desde que nascemos. A empatia começa a se expressar em nós de forma muito simples, por meio da mímica e da sincronização de corpos: bocejamos quando outros bocejam, damos risada quando outros estão rindo, choramos quando outros choram perto de nós. E fazemos isso desde que nascemos, sem que ninguém precise nos ensinar como e porque fazer. É o que acontece, por exemplo, quando um bebê imita as caretas dos pais ou quando o choro de um bebê desencadeia uma choradeira generalizada em um berçário. 
(Os primeiros anos de vida, são importantíssimos para o desenvolvimento da empatia. Falarei sobre isso em outro artigo.)

3.Se não fossemos seres empáticos, viveríamos em um mundo de psicopatas e autistas. Conforme crescemos, nossa expressão da empatia vai se tornando mais refinada e depende de dois componentes independentes, mas interligados: a empatia cognitiva e a empatia afetiva. A empatia cognitiva tem a ver com pensamento, com adotar a perspectiva do outro, compreender racionalmente o que pensa e sente. Já a empatia afetiva tem a ver com sentimento, com compartilhar emocionalmente os sentimentos do outro, verdadeiramente sentir aquilo que o outro sente. Obviamente esses dois componentes são aprimorados ao longo da vida, mas nascemos podendo ou não desenvolvê-los. Provas disso são encontradas em dois grupos específicos que apresentam diferentes déficits de empatia: os psicopatas e alguns tipos de autistas. Os psicopatas são mestres na empatia cognitiva, mas não possuem mecanismos que possibilitem o compartilhamento de sentimentos. Alguns autistas, por sua vez, são capazes de sentir o que o outro sente, mas apresentam dificuldades em compreender racionalmente a perspectiva do outro e em se diferenciar do outro (entender que ele e o outro são pessoas diferentes). Esses dois grupos somados representam 2% da população mundial, o que significa que os outros 98% nasceram para empatizar e são equipados para estabelecer conexões sociais.

Então sim, a empatia é inata. Maaaaaaas… ela também pode ser treinada e desenvolvida ao longo de toda a vida. Isso porque o nosso cérebro possui uma característica maravilhosa: ele é plástico! Isso significa dizer que ele pode ser treinado e que, assim como um músculo, se adapta e se molda de acordo com os estímulos que recebe. Ao ser estimulado, novas conexões são formadas, novas áreas são ativadas e algumas estruturas podem até aumentar de tamanho! Assim, se você começar hoje a treinar uma nova habilidade (seja ela tocar violão, aprender uma nova língua ou resolver um cubo mágico), seu cérebro começará a se transformar, fazendo com que aquela atividade fique cada vez mais fácil para você. O mesmo acontece com a empatia: quanto mais ela é treinada, mais natural ela se torna. E há inúmeras formas de treiná-la! Mas isso será tema de vários outros artigos.

E por que compreender que a empatia é inata e também pode ser treinada é tão importante? Porque daí não há mais desculpas para não praticar a empatia no seu dia a dia ou estimular que as pessoas o façam. Se o mundo precisa de mais empatia, você pode começar por você!

 

“A capacidade de empatia é um dos maiores talentos ocultos que quase todo ser humano possui. A maioria de nós a temos — mesmo que nem sempre utilizemos.”

Ronan Krznaric (Autor do livro O Poder da Empatia)